sexta-feira, 2 de maio de 2014

Estes 40 anos imobiliários

Uma boa iniciativa das celebrações em curso dos 40 anos do 25 de Abril é uma conferência sobre o Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), projeto que mobilizou arquitetos como Álvaro Siza Vieira, Souto de Moura, Gonçalo Byrne, logo após o 25 de Abril de 1974.

Esta conferência, a realizar em Maio no Porto recuperará memórias de um programa político que durou dois anos e foi lançado em Agosto de 1974 pelo então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, arquiteto Nuno Portas, visando solucionar problemas habitacionais das populações mais pobres, com o apoio dos próprios interessados.

Numa síntese que também espelha o que se viveu há 40 anos, alguém definiu o SAAL como uma experiência onde os arquitetos faziam os projetos com a participação das populações, os moradores construíam as casas e o Estado custeava os materiais.

O urbanismo e o pensar das cidades foi um dos traços destes 40 anos, no que ao sector da construção e do imobiliário diz respeito, tendo como pano de fundo a ideia de cidade como o espaço mais nobre para o exercício da cidadania, só possível se o património construído para satisfação das necessidades das populações for adequado às necessidades dessa mesma população.

É bom não esquecer que em Portugal construiu-se mais nos últimos vinte anos do século XX do que em todos os séculos que antecedem e integram a História do nosso país. Tentando recuperar atrasos de algumas décadas relativamente à Europa que se reconstruiu após a II Guerra Mundial nomeadamente no que respeita a infraestruturas fundamentais para a qualidade de vida.

Refiro-me, principalmente no que respeita a zonas urbanas, às redes de abastecimento de água potável, ao saneamento básico e, mais no caso das zonas rurais, até à chegada da eletricidade. Neste 40 anos que estamos a celebrar substituímos milhares de arcas salgadeiras, em madeira, onde se guardava a carne em sal, por arcas frigoríficas.

Não tenho dados sobre esta realidade mas penso que ter-se-ão vendido mais arcas frigoríficas nas aldeias e zonas rurais de Portugal do que nas cidades, onde o velho frigorífico bastava para as necessidades da vida das populações.

Num outro plano – e para não me furtar a contribuir para esta reflexão generalizada sobre estes 40 anos – terei de reconhecer que foi já depois do 25 de Abril de 1974 que se construíram autênticas aldeias clandestinas de segundas habitações, tendo no entanto também sido neste período que se erradicaram os principais bairros de lata (ou os mais tarde denominados espaços de alvenarias abarracadas, nomeadamente em Lisboa), bairros de habitação degradada e degradante nascidos nos anos 50 do século passado com o êxodo dos campos para as cidades.

Olhar para estes 40 anos que estamos a celebrar pelos ângulos do sector da Construção e do Imobiliário é um exercício que saúdo por ser um dos aspectos onde é mais evidente a ideia – justíssima - de que valeu a pena, apesar dos eventuais erros ou exageros cometidos.

Luís Lima
Presidente da CIMLOP

Fonte: Apemip