sexta-feira, 19 de junho de 2015

Inflacionar preços é não querer vender

Há quase dois anos, nas páginas deste jornal, perguntava quanto poderia valer um Picasso que em leilão na Sotheby's de Nova Iorque, lembrando o quadro “Dora Maar com Gato”, um óleo de 130 por 97 centímetros, que tinha sido arrematado, antes da crise, por 95 milhões de dólares, à data 75 milhões de euros.

Lembrava então que uma peça única é uma peça única, seja no mercado da arte seja no mercado imobiliário, lembrando também que o valor que estas peças podem atingir depende mais da procura do que da oferta, especialmente em mercados onde não existe um preço fixado por lei. Recordes deste tipo atingem-se quando há gente disposta a pagar tais valores.

A oferta pode pedir os valores que bem entenda, mas é a procura que determina o negócio. Embora, no mercado imobiliário português, o aumento de procura de casas por investidores estrangeiros não assegure automaticamente uma subida dos preços a que os imóveis são colocados no mercado. Mesmo que quem ofereça peça valores muito elevados.

Os valores por metro quadrado que os proprietários estão a pedir em Lisboa e no Porto terão subido 8,6 e 5,8 % respetivamente. Estes números estão, certamente, certos, o que não é tão rigoroso é que correspondam realmente ao valor de mercado. Os proprietários podem pedir os valores que sejam obter, mas isso não significa que consigam vender os imóveis a esse preço.

Estamos perante um fenómeno que espelha o fenómeno contrário da desvalorização excessiva e artificial dos preços das casas quando alguma procura tentou esmagar o valor do património construído a pretexto de uma bolha imobiliária de preços que diziam existir em Portugal mas que não realidade não existia.

Batia sempre contra uma tal redução, artificial, dos preços das casas, então resultante do abrandamento da procura. O que muito contribuía para uma tal desvalorização era o baixo valor médio da avaliação bancária dos imóveis numa tentação que, felizmente foi travada, e que visava um rápido escoamento de ativos indesejáveis.

Não falta então quem, de fora ou objetivamente ao serviço de quem está de fora, apostasse e incentivasse essa desvalorização generalizada do património construído com a clara e indisfarçável intenção de adquirir esta riqueza a preços muito favoráveis para quem compra. Em nome das chamadas oportunidades da crise, no caso em função da procura.

Estas oportunidades que a crise proporcionava à procura são idênticas às que o momento atual parece proporcionar à oferta. Podemos, enquanto proprietários, pedir pelo bem que possuímos o valor que muito bem entendamos, mas se esticarmos a corda não é seguro que consigamos realmente colocar no mercado o que queremos transaccionar.

O aumento da procura por parte de estrangeiros, a disponibilidade da banca para voltar a conceder mais crédito e a tendência dos juros baixos, quando indexados à EURIBOR, não bastam para que o preço dos imóveis, na oferta, suba de forma claramente evidente. As leis da oferta e da procura não são lidas de forma tão linear - apenas na vontade de alguns proprietários que, mais cedo ou mais tarde, perceberão o engano.

Luís Lima

Fonte: Apemip / SOL