terça-feira, 8 de março de 2016

Luís Lima: O índice do imobiliário

Tão lacónica como os telegramas noticiosos de antigamente, a notícia referia, de passagem, que Wall Street fechou um dia destes em alta graças à indústria, ao imobiliário e ao petróleo. O que é realmente notícia, mesmo que não tenha sido desenvolvida, é esta referência positiva da mais importante bolsa de valores dos Estados Unidos da América ao sector imobiliário norte-americano cuja bolha imobiliária esteve na base da crise financeira desencadeada em 2008.

Parecem estar afastados os tempos difíceis em que o sector financeiro, com relevo para quem emprestava dinheiro com base em hipotecas de imóveis, descobriu que afinal os clientes do segmento "subprime", clientes de rendimento baixo, alguns com cadastro de inadimplência eram oportunidades tóxicas pois quando deixavam de pagar os respectivos encargos comprometiam mais do que se pensava todo este sistema.

Quando neste contexto, recorde-se, os juros do Banco Central dos Estados Unidos (FED) começaram a subir, o crédito mal parado na habitação cresceu, o exemplo destes créditos retraiu a própria concessão de crédito e a Economia dos EUA e do mundo global que está ligado arrefeceu. Seguiram-se as falências no sistema financeiro, umas controlados outras nem tanto, de que a do Lehman Brothers é a mais conhecida em todo o mundo.

Nesses anos mais duros da crise, o imobiliário nos EUA caia a pique com desvalorizações anuais a números de dois dígitos. Valores muito afastados da possibilidade, há dias registada de forma lacónica, mas registada, do sector imobiliário estar a contribuir para uma subida dos principais índices da bolsa de valores de Nova Iorque, fazendo a notícia de uma alta em Wall Street, sempre contagiante numa Economia global.

A importância do sector imobiliário nas principais economias do Mundo é historicamente inegável. Como ainda há dias dizia o meu amigo Flávio Amary, recém empossado como o novo líder da importante associação empresarial paulista do SECOVI, o imobiliário tem “só” a missão de oferecer “espaços adequados para se morar e trabalhar, para estudar e se divertir, para viajar, para prosperar”, preservando o meio urbano e os recursos naturais.

Isto sem ignorar que as democracias dos países desenvolvidos e em desenvolvimento consolidaram-se sempre melhor pelo acesso generalizado à propriedade imobiliária, na exacta medida em que ter casa própria foi e ainda é um sinal exterior do estatuto social das classes que sustentam as democracias, em especial a chamada classe C, denominada classe média popular, indispensável às economias que queiram servir democracias saudáveis.

Como já em tempos sublinhei, quando não é acompanhada de uma melhoria das condições económicas das populações ou quando sofre vicissitudes tais que a classe média corre riscos de extinção, a Democracia enfraquece ao gerar fossos profundos entre o topo e a base da pirâmide social, com todas as inerentes consequências negativas para o desenvolvimento dos paises assim atingidos. E o imobiliário é sempre um bom índice para avaliarmos este estado de coisas.

Daí a boa notícia, mesmo que lacónica, a referir que Wall Street fechou um destes dias em alta também por força do imobiliário. Uma boa notícia para os EUA em ano quente de eleições presidenciais mas também para o resto do Mundo da Economia global.

Luís Lima

Fonte: Apemip