terça-feira, 19 de abril de 2016

Desfocados

A surpresa e o choque causados pelas revelações que as fotocópias vindas do Panamá causaram na opinião pública e, em especial, em alguns fazedores de opinião, está a ser tal que já ouvi alguém considerar que depois deste escândalo a classe média retrair-se-á com medo de ser apanhada nestas teias. Como se a classe média tivesse residência nesse até agora discreto bairro panamiano.

Para a classe média, em Portugal e não só, o que é realmente preocupação não é ser apanhada nestas teias da fuga ao fisco e de outros ilícitos bem mais graves. É tão simplesmente conseguir fugir ao destino, em alguns casos real, do acentuado empobrecimento da própria classe média, fenómeno que poderá causar a fuga para o estrangeiro de alguns dos representantes desta mediania mas apenas em busca de trabalho.

Os que navegavam e ainda navegarão pelo mundo da finança com bandeira panamiana não são aqueles que ascenderam da base da pirâmide social e alcançaram o patamar dourado desse núcleo central das democracias que é a classe média, instalando-se na economia formal com a vontade de aí permanecerem sustentadamente e de sustentadamente consolidarem uma maneira de estar na vida que é modelo em muitos lugares.

Os que navegavam e ainda navegarão nessas águas pertencem a um núcleo muito restrito de uma certa elite, de uma elite que, em muitas cidades, vive literalmente como se vivesse no céu pois já nem utiliza automóveis topo de gama para as respectivas deslocações, deslocando-se preferencialmente de heliporto para heliporto numa ocupação simbólica e real dos céus, acima das coordenadas da classe média.

Esta, a classe média, está tão surpreendida com as revelações que as fotocópias vindas do Panamá causaram como estarão os jornalistas do consórcio internacional que as revelaram ou como ficaram as figuras públicas que, em muitos países, foram apanhados nesta teia quando julgavam que nunca seriam descobertos. Considerar a classe média como a vilã e como a vítima deste escândalo é, parece-me, desfocar um pouco esta história.

Luís Lima

Fonte: Apemip